cb6d5943b8bf81d32049227478ce3290Maria Eduarda de Sena Diniz – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Um filme que causou alvoroço logo antes de estrear, Sergio entrou para a lista dos 10 mais vistos na plataforma Netflix, um dia depois de sua estreia oficial. Os internacionalistas e diplomatas brasileiros, especificamente, ficaram muito interessados no longa por tratar de uma das figuras mais importantes das Nações Unidas. Sergio Vieira de Mello foi um diplomata brasileiro que trabalhou em missões de paz para a Organização das Nações Unidas por 34 anos. Um de seus feitos mais famosos, que é mostrado no filme, é a sua participação no processo de independência do Timor Leste, em 2002. A última missão do diplomata foi no Iraque pós-Saddam Hussein, quando uma bomba explodiu na sede da ONU, em 2003.

O filme começa mostrando a sua face diplomática, mostrando a representação de um vídeo que realmente existiu, em que Sergio fala sobre o trabalho nas Nações Unidas, mostrando sua profunda ligação com as missões de campo que participou. Enquanto mostra acontecimentos reais, o drama também mostra memórias do diplomata, que o acompanham constantemente, principalmente, memórias de sua casa, o Rio de Janeiro, dos filhos e da mulher que ele amava.

O longa foca nas duas últimas missões do diplomata, a de Timor Leste e a missão no Iraque. Porém, para quem deseja ver uma biografia completa, mostrando a trajetória, ambições e ações dessa figura épica, Sergio não é o filme para isso. O filme é baseado, principalmente, no relato da viúva do diplomata, que estava com ele no Iraque na época do atentado, a economista Carolina Larriera. Por conta disso, alguns críticos se confundem em como classificar o filme, se como um drama, um documentário ou um romance. Porém, a verdade, é que ele é todos os três.

Esse filme traz um retrato muito real do homem, da pessoa humana por trás da “lenda”. Vemos uma pessoa em constante conflito interno, alguém que quer fazer o que considera certo, mas que tem pessoas de todos os lados que nem sempre concordam com suas percepções. Vemos um pai, que queria conhecer mais de seus filhos, mas não consegue dizer não a sua vocação, e por isso toma decisões, muitas vezes. Vemos alguém que sente falta de casa.

Uma das cenas mais emocionantes, que talvez consiga desmoronar até o ser humano mais frio, é quando Larriera leva Sergio para conhecer um projeto, no Timor Leste, com um grupo de mulheres atingidas pela guerra, e ela conversa com uma delas que, Carolina explica, perdeu tudos e todos na guerra. A conversa entre essa senhora e o diplomata revela um dos desejos mais profundos dele, e Wagner Moura consegue passar bem os sentimentos daquele momento.

Mesmo que o filme tenha sua carga de romance, já que a relação entre Carolina e Sergio é um dos principais destaques, com os atores Wagner e Ana fazendo um trabalho realmente fantástico, ele também é capaz de agradar àqueles que queriam conhecer os dramas da vida diplomática. Vários acordos e conversas importantes são mostradas e o drama realmente pode ser sentido, é perceptível como uma decisão errada pode colocar vidas em risco e a tensão é palpável.

Vemos isso no Timor Leste, com o líder rebelde, e no Iraque, com os americanos. Sergio Vieira dá uma lição de diplomacia em vários momentos, cometendo erros também, mas pendendo toda a situação para saber qual a melhor estratégia para lidar com cada líder, como na A situação no Iraque, quando o diplomata tem que lidar com o enviado americano um pouco antes da explosão da bomba. Além de ter que saber lidar com as ambições de cada líder, com a necessidade de cada missão, ele precisa também saber lidar com a imagem que existia sobre as Nações Unidas, porque essa imagem era muito ligada aos Estados Unidos, o que fazia com que muitos líderes, como o do Timor Leste, não se sentissem confortáveis em negociar com representantes da ONU. Isso não facilitava as tentativas de mediação do brasileiro, mas isso não o impedia.

O ataque que ceifou a vida do carioca ganha bastante ênfase, principalmente o processo demorado em conseguir resgatar o diplomata, que o levou a consequência fatal. A sua morte é retratada quase como uma poesia. Não vemos o corpo, mas vemos a sua visão, como se ele estivesse se distanciando do que amava. Sua morte é vista, até hoje, como um divisor de águas para a organização e o longa ajuda a se entender um pouco o porquê.

Sergio é um filme que tem a capacidade de entreter amantes dos vários gêneros do cinema, mas acima de tudo, é ótimo para conhecer o verdadeiro espírito da verdadeira diplomacia brasileira.