Guerra da Bósnia

Matheus Castanho – Acadêmico do 3° Semestre de Relações Internacionais da UNAMA

O fim da guerra fria acelerou diversos conflitos em diversas regiões no mundo, em especial, o conflito na Bósnia. A guerra da Bósnia está intrinsecamente  ligada à formação e dissolução da nação da Iugoslávia. Formada após a primeira guerra mundial sobre territórios do antigo império Austro-Húngaro anexados pela Sérvia, o reino da Iugoslávia (reino dos Eslavos do Sul) era um Estado extremamente dividido étnica e religiosamente. Sendo composto na maior parte por Sérvios ortodoxos e Croatas e Eslovenos católicos, assim como Macedônios e Montenegrinos. O território da Bósnia era ainda mais dividido, tendo Bósnio-Croatas, Bósnio-Sérvios e Bosniaks muçulmanos.  

A predominância dos  sérvios causaria enorme ressentimento em diversos povos da região, o que ocasionaria numa grande ascensão de movimentos nacionalistas, culminando na formação do Estado Independente da Croácia durante a invasão do eixo na segunda guerra mundial, liderado por um movimento Fascista chamado Ustaše que cometeu genocídios contra os Sérvios. A Iugoslávia acabaria sendo reunificada sobre a liderança do ditador comunista Josip Broz Tito, líder das guerrilhas Partisanas de resistência na região que remodelaria o reino para uma república federativa aos moldes soviéticos. 

A morte de Tito em 1980 e a crise econômica que o seguiu desencadearia a série de eventos que levaria à  guerra da Bósnia. Tensões culturais começaram a eclodir, assim como movimentos nacionalistas em algumas das repúblicas constituintes, em especial na Eslovênia, Croácia e o território autônomo de Kosovo. O presidente da Iugoslávia, Slobodan Milosevic tentaria aumentar a centralização através da eliminação de rivais políticos, sendo acusado de tentar criar uma Sérvia maior. O estopim do conflito ocorreria após as primeiras eleições multipartidárias nas diversas repúblicas, quando o nacionalista Franjo Tuđman foi eleito para a presidência da Croácia. Ainda com as memórias dos genocídios na segunda guerra frescos, diversos Sérvios na Croácia e na Bósnia formaram milícias independentes que começaram a entrar em conflito com organizações paramilitares Bósnias e Croatas, estas milícias sendo apoiadas pelas forças armadas Iugoslavas sobre o comando da república Sérvia, levando á declaração de independência oficial da Croácia e Eslovênia. Assim começando um estado de guerra Total entre os grupos étnicos. 

A  Comunidade Europeia tentou estabelecer a paz através de negociações para a retirada de tropas Sérvias da Eslovênia porém o conflito na fronteira da Croácia estava apenas se intensificando, com milícias Sérvias tomando controle até mesmo de cidades etnicamente Croatas, assim como o aumento de crimes de guerra em ambos os lados, em especial genocídios e o uso do estupro como arma de terror psicológico.

Uma nova rodada de negociações em Haia conseguiu um cessar fogo entre Croácia e Sérvia apesar da recusa de Milosevic de reconhecer a independência das outras repúblicas constituintes. No entanto foi a partir desse momento que a guerra na Bósnia se intensificou, com os Bósnios aprovando um referendo de independência em 1992 boicotado pelos Sérvios porém com 99% de votos a favor por parte dos Bosniaks e Bósnio-Croatas. Após um aumento de crimes de ódio cultural, as milícias Sérvias começaram bloqueios e ocupações em diversas cidades demandando ao governo Bósnio que parasse com sua tentativa de independência, logo após proclamando a república de Srpska em favor de união com a Sérvia, a República socialista da Iugoslávia seria oficialmente dissolvida nesse mesmo ano, sendo sucedida pela República Federativa da Iugoslávia, composta apenas pela Sérvia e Montenegro. 

O conflito se manteria até 1995, com os principais crimes de guerra sendo cometidos nessa segunda parte do conflito, em especial o cerco da capital Bósnia de Sarajevo, que durou por 3 anos e mataria milhares de civis através de bombardeios e muitos mais pela fome. Limpezas étnicas seriam frequentes, em especial nas comunidades Bosniaks, como no massacre de Višegrad, onde cerca de 3000 civis Bosniaks seriam executados por terroristas Sérvios, havendo também inúmeros casos de violência sexual. Após uma série de intervenções militares da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e da Federação Russa o conflito começaria a se dissipar até o acordo de Dayton em 14 de dezembro de 1995 onde é determinada a partilha internacional da Bósnia em uma comunidade Muçulmano-Croata e uma Bósnia-Sérvia, junto com um governo único dividido entre as três etnias.

A guerra da Bósnia foi um dos conflitos mais desastrosos do século XX, deixando uma profunda marca não somente nos Bálcãs mas também em diversas peças literárias e culturais, como “O diário de Zlata” que relata os horrores do cerco de Sarajevo, na música “Miss Sarajevo” da banda Irlandesa U2 ou o quadrinho “Safe Area Goražde” do jornalista Joe Sacco.

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https://youtu.be/NWjbwa2Nazs

Referências :
ZIMMERMAN, Warren. Yugoslavia and its destroyers. Crown, 1st edition, 1996.