Mullah Abdul Ghani Baradar, the leader of the Taliban delegation, signs an agreement with Zalmay Khalilzad, U.S. envoy for peace in Afghanistan, at a signing ceremony between members of Afghanistan's Taliban and the U.S. in Doha

Iago Braga – acadêmico do 3° semestre de Relações Internacionais da UNAMA.

Em 1979, um golpe no Afeganistão levara ao poder um grupo ligado à União Soviética (URSS). Como resposta, o Governo dos EUA, influenciado por seu assessor de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinsky, decide fomentar grupos fundamentalistas para conter o avanço dos comunistas não apenas no país do centro asiático, mas também em toda a região (MARTINS, 2015). O Talibã fora criado nesse processo de apoio a contrarrevoluções por parte dos estadunidenses, entretanto o feitiço haveria de virar contra o feiticeiro, levando os dois atores a travarem uma guerra de quase vinte anos.

Para compreender esses acontecimentos, recorre-se à teoria de Kenneth Waltz, o pai do neorrealismo estruturalista. Waltz possui duas obras fundamentais para compreender o seu pensamento acerca das Relações Internacionais: “Theory Of International Politics” e “Man, the State, and War”. Com esses livros, o neorrealista compõe uma nova etapa à vertente realista, muito influenciada por autores clássicos, como Tucídides, Hobbes e Maquiavel (SARFATI, 2005, p. 364).

Com isso, a teoria waltziana, que é estruturalista, se conforma a partir da ideia de que o sistema internacional é anárquico – um arranjo de Estados-nação que lutam pela sua sobrevivência por conta própria. Esse princípio de ordenamento (SARFATI, 2005, p. 147) leva em conta uma hierarquia que também se baseia em um nível de poder militar (poder-força) das capacidades relativas de cada unidade do sistema. Isso anteposto, Waltz irá tecer uma conclusão um tanto pessimista: a guerra é inexorável.

Essa afirmação decorre do fato de que, em um sistema anárquico, os Estados buscam sempre a sua sobrevivência, “desconfiando” de outros Estados e gerando um clima de tensão entre eles, o que faz com que esses atores tendam a melhorar sempre seu poder-força – criando uma balança de poder nesse contexto (SARFATI, 2005, p. 148).

Nesse ínterim, volta-se às discussões do dia 29 de fevereiro, em Doha (Catar), onde os EUA e líderes do Talibã assinaram um acordo que supostamente visava a construção do fim do conflito que já dura 18 anos e se iniciou após os acontecimentos do 11 de Setembro (BBC, 2020). O acordo deve minimizar os embates no solo afegão com a retirada paulatina de militares americanos e da OTAN e auxiliar a campanha de reeleição de Trump com o regresso dos combatentes norte-americanos à casa. O que chama atenção é o fato de que, pouco tempo após a assinatura do acordo, o Pentágono anuncia que bombardeou um dito esconderijo talibã na província de Helmand, com a justificativa de um “ataque defensivo” (GOULÃO, 2020).

É interessante ressaltar que o acordo, firmado como uma trégua, foi discutido sem o consenso das autoridades do Estado afegão e por uma mesa cujo formato não foi discutido pelas autoridades estadunidenses, o que dá bastante espaço aos talibãs – algo semelhante já fora visto na derrota dos EUA no Vietnã (GOULÃO, 2020).

Destarte, observa-se esses ocorridos como uma confissão velada de uma derrota na guerra que já dura duas décadas. Todavia, não é interessante aos Estados Unidos deixar a região por completo. A Ásia Central já é palco do crescimento de outras potências muito importantes como a Rússia, a China e o Irã, uma área de tensão que vem deixando de ser persuadida pelos interesses norte-americanos. A posição dos EUA, então, foi a de dar um passo atrás e ceder ao acordo com os talibãs na busca por melhorar a sua influência naquela área – não deixando pender a balança do poder ao lado oposto. Entretanto, com perspectiva ao Afeganistão, tomou-se novamente a organização do Talibã como uma ameaça à sobrevivência dos EUA, o que levou os oficiais do Pentágono a bombardear o refúgio dos fundamentalistas.

REFERÊNCIAS:

BBC. Conflito no Afeganistão: EUA e Talibã assinam acordo para encerrar guerra de 18 anos. 29, fevereiro, 2020. Acesso em 13 de março de 2020.

GOULÃO, José. Acordo do Afeganistão é a derrota da NATO. Abril Abril, 06, março, 2020. Acesso em 13 de março de 2020.

MARTINS, Antonio. Como os Estados Unidos criaram Bin Laden. Outras Palavras, 02, maio, 2015. Acesso em 13 de março de 2020.

SARFATI, G. Teoria das relações internacionais. São Paulo: Saraiva, 2005.