5bdc935b5e27fb6ee768324a5f2d5031Maria Eduarda Diniz – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

O genocídio de Ruanda marcou profundamente a África e revelou, de forma mais escancarada, as cicatrizes da colonização europeia na região e a, ainda, a forte presença dos europeus, também e de americanos e de multinacionais no controle das riquezas africanas. Black Earth Rising é uma minissérie de 8 capítulos, lançada em 2018, que segue a história de Kate Ashby, criada na Grã-Bretanha por sua mãe adotiva, Eve, mas que nasceu em Ruanda e foi resgatada quando criança do genocídio. Seguindo os passos de sua mãe, uma respeitada promotora britânica em direito penal internacional, Kate trabalha como investigadora legal, até que Eve tem de lidar com um caso no Tribunal Penal Internacional, envolvendo um líder da milícia ruandesa, e que muda completamente a vida dela e daqueles envolvidos com o seu passado.

Kate Ashby é uma protagonista decidida a desvendar a história. A série mostra como o genocídio afetou o povo ruandês, não só na sua composição política, mas o psicológico da população. Kate, mesmo tendo sido criada afastada da Ruanda pós-genocídio, carrega uma grande mágoa, cicatrizes emocionais e físicas, lembrando-se constantemente do que foi feito com seu povo.

À medida que Kate avança em suas investigações, e após uma tragédia no Tribunal Penal Internacional, ela percebe que os precedentes que levaram a todo o infortúnio em Ruanda tem fortes ligações com países, empresas e agências governamentais e não governamentais que se beneficiavam da desigualdade entre os Tutsis e os Hutus, estimulando as diferenças sempre que possível, a fim de um maior beneficiamento das riquezas do país.

A série também busca se aprofundar nos procedimentos usados pelo Tribunal, além de levantar questões sobre sua eficiência, e discutir a força das leis nacionais e internacionais, havendo várias diferenças entre o que a lei impõe e o que é justo. Os sistemas jurídicos do mundo todo são confrontados diante dos casos apresentados por Kate Ashby, havendo um novo embate sobre se as leis tratam do que é justo.

O genocídio é algo extremamente presente na vida dos personagens, mesmo aqueles que não o viveram diretamente. Todos têm interesse de esconder algo, porque todos seguiram em frente deixando histórias mal resolvidas no passado. As leis que afirmam que não será permitido discursos sobre divisões entre grupos, de qualquer tipo, não protege completamente a população da ambição de grandes atores internacionais.

A minissérie surpreende ao mostrar uma parte da história que ninguém conhece, mas que é igualmente violenta e triste. Somado a isso, a série utiliza dos relatos dos “capacetes azuis” e de ex-milicianos africanos, para mostrar como funciona a corrupção dentro dos soldados da ONU, e como as milícias se formam com ajuda externa. A minissérie é longa e bem interessante e nos ajuda a expandir a nossa visão sobre esse tema tão importante.