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Prof. Dr. Mário Tito Barros Almeida – Internacionalista e Teólogo

Durante o período da quaresma (40 dias antes da Páscoa), a Igreja Católica no Brasil promove a Campanha da Fraternidade, um evento que mobiliza toda a sociedade brasileira para uma necessidade social, em especial voltada para garantia, defesa e promoção dos direitos humanos de populações excluídas socialmente. Neste ano, o tema é “Fraternidade e vida: dom e compromisso” e busca refletir sobre o significado mais profundo da vida em suas diversas dimensões: pessoal, comunitária, social e ecológica.

Este tema é global pois as ameaças e as violações aos Direitos Humanos vêm crescendo na sociedade internacional. Assim, é relevante perguntar como a Campanha da Fraternidade representa a concretização dos anseios de valorização da pessoa num mundo cada vez mais intolerante e discriminante. 

O pensamento de Andrew Linklater pode colaborar com esta análise. De  fato, este teórico das Relações Internacionais, ligado à teoria crítica e ao cosmopolitismo, defende a ideia que, para garantir que o homem seja valorizado como cidadão do mundo, deve acontecer a construção de comunidades políticas que contemplem éticas mais universais e dêem importância para o respeito das diferenças. É o que ele chama de comunidade cosmopolita comunicativa da humanidade (Linklater, 1998; 1996).

Para que isto aconteça, o autor sustenta-se na ideia da necessidade de uma ética universal – princípios morais – comum à humanidade, a qual é produzida pela abertura ao diálogo entre os diversos grupos e culturas. Neste sentido as expressões religiosas, seja em nível da religiosidade ou de sua organização social em forma de religiões, podem ser um dos locus para que este diálogo gere a defesa dos direitos humanos, onde os valores morais constituam-se como base para uma convivência inclusiva no mundo.

A Campanha da Fraternidade, com efeito, convida os “homens de boa vontade” a engajarem-se na denúncia das diversas situações onde a vida tem sido descuidada e necessita de uma intervenção para que ela seja salvaguardada e defendida em todos os seus aspectos. Isto significa seguir a ética do cuidado pela pessoa e pelos seus direitos fundamentais (CNBB, 2020).

Os três verbos que indicam o percurso das ações da Campanha (ver, sentir compaixão e cuidar) inspiram-se na Parábola do Bom Samaritano e expressam o modo específico de valorização dos direitos humanos à luz deste engajamento. Ver significa não estar indiferente à situação dos mais excluídos, ou seja, quer dizer importar-se com o outro e perceber o quanto o outro precisa de ajuda. Sentir compaixão refere-se a solidarizar-se concretamente com a dor do outro, compartilhar o sofrimento e propor-se a agir de maneira não pontual, mas duradoura, para ajudar o outro a sair dessa situação. Cuidar, por sua vez, expressa a atitude de sair da zona de conforto e participar de ações concretas para que o excluído seja incluído, para que o inviabilizado seja respeitado e para que o marginalizado seja inserido no banquete da vida.

A Campanha da Fraternidade, por isso, se transforma numa verdadeira ação humanitária que vai além de uma iniciativa de uma determinada religião e alcança todos os que desejam uma sociedade onde todo ser humano tenha vez e voz e onde os direitos das minorias sejam defendidos. E isto não pode acontecer se não houver o diálogo honesto entre as diferenças. É o que Linklater (1998) pretende quando propõe a criação de comunidades dialógicas, sensíveis às necessidades das vítimas do projeto totalizante e que respeitem a diversidade cultural.

Que a Campanha da Fraternidade seja uma oportunidade de despertar para a luta em prol dos direitos humanos e para a resistência coletiva em favor dos que mais precisam de nossa visão, de nossa compaixão e de nosso cuidado.

 

REFERÊNCIAS

CNBB. Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2020. Brasília, CNBB, 2020.

LINKLATER, Andrew. The Achievements of Critical Theory, in S. Smith, K. Booth e M. Zalewski (orgs.), International Theory: Positivism and Beyond. Cambridge: Cambridge University Press, 1996.

______ . The Transformation of Political Community. Oxford: Polity Press, 1998.