feminismo

Geórgia Amarante – Internacionalista formada pela UNAMA

Dia 8 de março é conhecido como dia internacional das mulheres, em razão das constantes lutas por igualdade de gênero por mulheres socialistas na Europa e trabalhadoras e sufragistas americanas no século XVIII. No entanto, este dia passa a ser considerado como marco internacional de luta das mulheres, de fato, após o famoso episódio do incêndio – que acontece em 1911 – numa fábrica têxtil em Nova York, queimando e matando mulheres assalariadas americanas e imigrantes, na maioria judias e italianas, totalizando 146 pessoas, 125 mulheres e 21 homens.

A luta por igualdade entre homens e mulheres segundo a corrente feminista liberal do ocidente, segue uma lógica de conquistas históricas desde a Revolução Francesa de 1789, Revolução Industrial e outros movimentos através da luta de direitos políticos, como o sufrágio.  Em 1893, a Nova Zelândia se tornou o primeiro país a garantir o sufrágio feminino, porém, em nem todos os países se passou igual, por exemplo, somente em 1906 o voto foi conseguido pelas finlandesas, na África do Sul somente em 1993 e na Arábia Saudita em 2011.

Por outra perspectiva, superando a narrativa do direito eleitoral, é preciso enxergar a história de luta de mulheres para além do histórico anglo-saxão. Feministas da América Latina, África e Ásia levantam as discussões que demonstram que as lutas de mulheres já começaram bem antes do século XVIII.

Como bem descreve Julieta Paredes (2014) através do feminismo comunitário, a partir de 1492, se deu a invasão colonial na América Latina que conhecemos hoje, isto significa que a Europa e Estados Unidos não deram início às lutas feministas contra o patriarcado. Isto se demonstra a partir do conhecimento da estrutura colonial e imperialista que nações europeias impuseram em outros continentes, implementando políticas de aculturação, genocídio, exploração e subordinação.

O que implica na relação direta entre a sociedade europeia imperialista e a violência de gênero sofrida por mulheres nesses continentes, negando inclusive suas identidades como seres humanos. Uma questão importante que Paredes (2014) levanta em El tejido de la rebeldía: Qué es el feminismo comunitário? Bases para la despatriarcalización, se sintetiza no entendimento de que todos os corpos são políticos, pois todos fazemos política com o corpo, desde os corpos e para os corpos.

Isto é, entender que todos têm algo a apontar para a luta, toda a revolução deve levar em consideração esta premissa, pois, é a partir dos nossos próprios nomes e crenças que contextos políticos, econômicos e sociais são estabelecidos. Nesse sentido, cada corpo diferente tem significados diferentes nas lutas, frente aos poderes construídos, instituídos patriarcalmente herdados.

Considerando estes conhecimentos, retoma-se a discussão de sufrágio para entender o recorte de raça e gênero que também foi feito. Por exemplo, em 1870, foi permitido o voto para homens negros nos EUA, mas somente em 1920 o voto foi liberado para mulheres, incluindo mulheres negras. Isto é o que Bell Hooks (2014) no livro Ain’t I a Women? Black Women and feminism, a autora discute sobre o apoio dos homens brancos norte-americanos ao voto do homem negro em maior ênfase do que ao voto da mulher branca, episódio que revela a profundidade do sexismo que nesse momento foi maior do que o racismo.

Hooks (2014) continua dizendo que isto aconteceu porque por muito tempo as mulheres negras não admitiam juntar as lutas por direitos das “mulheres” pois, as próprias não viam a natureza feminina como parte essencial de suas identidades. Em face aos enfrentamentos trazidos pelo racismo, foi criado um ambiente no qual suas feminilidades foram invisibilizadas, sendo reduzidas ao único rótulo da raça, ou seja, negando-as a própria condição de ser mulher.

A luta de todas estas mulheres até hoje deve ser rememorada e levada em frente através de um longo caminho que mulheres ainda trilham contra o sexismo e o machismo estrutural nas sociedades. Assim como as operárias assalariadas nos EUA morreram após lutar por direitos trabalhistas ou como a luta por direito à vida das mulheres indígenas e negras, as mulheres e homens do século XXI devem se lembrar todo dia dessa construção histórica e persistir por mudanças sistêmicas.

O dia 8 de março deve ser usado como data de resistência e combate a todas as formas de opressão que continuam enraizadas nas instituições e pessoas. Através da transformação de cultura e mudança de mentalidade, é preciso edificar um espaço de diálogo entre a pluralidade de identidades, bem como advertir comportamentos que de qualquer forma não colaborem para o respeito ao bem estar das pessoas. 

De modo especial, que nesta data, mulheres e homens possam se apoiar mais! Que todos os mitos de rivalidade feminina ou de incapacidade feminina possam ser extinguidos, que possamos incentivar mais mulheres – financeiramente, emocionalmente (com uma conversa) e etc. – que controlemos os comentários e julgamentos maldosos de outras(os), que compartilhemos mais nossos conhecimentos com mulheres. E que fundamentalmente, possamos lutar por direitos políticos e sociais para movimentar a estrutura classista e patriarcal existente, que gera cada vez mais desigualdades.

Discutir feminismo e vida de mulheres, é discutir política eleitoral, é discutir economia, capitalismo, racismo, paz, guerra e tudo que permeia a sociedade. A construção de gênero não se dá separada de nenhum processo sistêmico, pelo contrário, o gênero é um destes processos que permite entender como surgem as estruturas de dominação. A luta e o protagonismo de mulheres de qualquer raça, etnia, origem, crença e demais identidades traz mudanças e ressignificações de seus papéis na sociedade e na história. 

REFERÊNCIAS

HOOKS, Bell. Não sou eu uma mulher. Mulheres negras e feminismo. 1ª edição: 1981. Tradução livre para a Plataforma Gueto. Janeiro 2014.

PAREDES, Julieta C. GUZMÁN, Adriana A. El tejido de la rebeldia. Qué es el feminismo comunitário? Ed. Comunidad Mujeres Creando Comunidad. Moreno Artes Gráficas, La Paz, 2014.

BLAY, Eva Alterman. 8 de março: conquistas e controvérsias. Revista Estudos Feministas. Vol. 9 nº 2.  Florianópolis, 2001. Disponível em <<https://doi.org/10.1590/S0104-026X2001000200016>> Acesso em 06/03/2020