5629c85b5c2846333fd779f44ff088d2Maria Eduarda Diniz – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Um filme que fez história numa das maiores premiações do mundo do cinema. Parasita (2019) aparenta ser uma história simples, que se desenrola num complexo drama que afeta a todos que o assistem. O vencedor de quatro Oscars, incluindo Melhor Direção e Melhor filme, conta a história de duas famílias: uma, pobre, morando em uma das muitas casas subterrâneas da Coreia do Sul, e a outra, uma família rica, que mora numa grande mansão no centro de Seul, a capital do país. A trama começa com o filho da família menos abastada conseguindo um emprego na casa da família rica, iniciando uma série de mentiras e tramas para colocar todo o resto da sua família dentro da casa, com ele.

Um filme aparentemente simples, transforma-se em algo muito forte e profundo com o passar do tempo. Muitas variações da Coreia do Sul são mostradas pela convivência entre as duas famílias, questões cotidianas que modelam o pano de fundo da história. Talvez essa seja o motivo de ter intrigado tanto os avaliadores e assim ter ganhado a estatueta. Parasita é um filme muito real, mas não é um filme visceral, com cenas fortes para assustar ou impactar a quem assiste. São os diálogos que deixam o filme extremamente emocionante, notar como cada fala é planejada, mas natural, como todos estão cobertos de tensão, mas ainda agem como se todos os acontecimentos não passassem de uma coincidência.

O ambiente colabora muito. A iluminação que o diretor usa em cada local, combina muito com os humores dos personagens e com a progressão da trama. No começo, por exemplo, tanto a casa subterrânea como a mansão estão envoltos em uma iluminação escura e cinzenta, e os sentimentos dos atores se combinam ao ambiente, estando todas as duas famílias, à sua maneira, desencantadas e perdidas. À medida que a história vai se desenrolando, o cenário vai mudando também, ficando mais claro e menos tenebroso, ou voltando ao breu quando uma tragédia se aproxima. Além disso, nos é apresentada uma Coreia do Sul ainda marcada pela Guerra das Coreias.

Para quem já é conhecedor de produções sul-coreanas, entende que não é tão comum haver menções aos norte-coreanos, ou a guerra passada, apenas nos poucos casos em que são feitas produções sobre isso. Isso não acontece em Parasita. O filme mostra como a relação com a Coreia do Norte ainda faz parte do cotidiano dos sul-coreanos, mesmo que de formas mais sutis. O exemplo mais gritante são as habitações das famílias. A família mais pobre vive em uma casa subterrânea, construídas no período da guerra para se proteger das bombas, e, na mansão da família rica, também existe um abrigo subterrâneo para um ataque norte-coreano, mesmo que ele seja mais escondido, porque, como o filme mostra, a Coreia do Sul busca fortemente se desapegar de sua ligação com o país vizinho, também com o costume entre a população sul coreana, de fazer “graça” da Coreia do Norte e de seu modo de viver, tão diferente do deles.

Porém, algo que o filme destaca bem é o embate entre o certo e o errado, justamente porque não é isso que move a balança moral dos personagens, mas sim, a necessidade. O que é necessário, o que é preciso fazer, está acima de tudo. Nenhum dos retratados no filme, nem a família que engana, nem a ingênua, são boas nem más. Nota-se que, apesar de escolhas ruins, a família pobre não deseja fazer mal a ninguém e não busca causar sofrimento, sendo apenas pessoas comuns, mas desesperadas. Mesmo a família rica, apesar de ser a enganada, também tem vários momentos de extremo preconceito e de atitudes pouco corretas.

Então, é como se o filme questionasse o tempo todo até que ponto o ser humano está disposto a chegar, até que extremo é possível o ser humano ir quando está com medo ou desesperado. Tanta carga emocional e psicológica dão ainda mais sentido para o fato de este longa ter faturado o prêmio que os americanos sempre levam. Ou levavam.