América Latina

Larissa Lacerda – Acadêmica do 7° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Na análise do Estado, Poder e Classes Sociais proposta por Reinaldo Gonçalves em seu livro Economia Política Internacional (1951), temos Classes como um conjunto de indivíduos com interesses comuns, onde estes têm por fonte de desejo manter ou romper suas relações de opressão ou aumentar o próprio poder. Assim sendo, é de fundamental importância salientar as especificações das classes quanto sua posição qualificativa e de autoridade, fazendo o recorte de Poder e Estratificação Social.
Quando compreendemos a forma social da autoridade, posta por Gonçalves como o controle sobre um “(…) ativo organizacional via relação de dominação dos subordinados e participação na tomada de decisão” (Gonçalves, 2005, p. 69), e a confrontamos com a estratificação social frente ao Poder, nos deparamos com a dicotomia: Governantes versus Governados, onde a lógica binária estabelece a característica do controle dos instrumentos de dominação, e o domínio do poder político como forma de inter-relação entre classes.
Em termos práticos, vemos a relação entre os governos Latino-Americanos frente à população, onde tradicionalmente existe uma relação de autoridade dos primeiros frente aos segundos por meio de políticas de organização estatal – lê-se por leis e formas coercitivas, tal qual poder de segurança. Entretanto, como postula Rousseau (1762) quanto à inalienabilidade da soberania em seu livro O Contrato Social “só a vontade geral pode dirigir as forças do Estado, segundo o objetivo de sua instituição” (1762, Livro II, p. 33), ou em palavras de cunho popular “o poder, emana do povo”.
De forma tal, dotado de tal conhecimento, implícito à sua existência, a população latino-americana tem demonstrado sua insatisfação quanto à relação de autoridade estabelecida pelo Estado. A onda de protestos populares tomou conta dos países da América Latina pelas mais diversas razões, a exemplo do Chile, com aumento da taxa do metrô, semelhante ao caso brasileiro; a Bolívia com a suspeita de fraude eleitoral, e o Equador com o fim do subsídio dos combustíveis e afins.
Contudo, apesar de pautas iniciais diversas, quando analisamos a relação entre tais protestos vemos algumas características marcantes e presentes nos protestos, sendo elas:
Retomada do poder popular sem uma organização tradicional explícita, ou seja, sem bandeira ou organização política direta.
As pautas são produto de frustrações diretas das questões cotidianas as quais foram afetadas pelos manejos econômicos, por projetos ineficientes.
Assim sendo, percebemos que a crise latino-americana diz respeito à descredibilidade no setor Estatal em resolver os problemas imediatos à população, não sendo diretamente uma questão de ideologia político-econômica uma vez que os países sul-americanos perpassam tanto por políticas de direita, como de esquerda.
Gonçalves (1951) nos trás essa perspectiva ao afirmar que nem os partidos de esquerda defendem prioritariamente os interesses dos trabalhadores quando no poder, e nem a direita protege preferencialmente os direitos dos capitalistas (ibdem, pg. 70), o que desenvolveu em insatisfação de todas as camadas sociais, porém afetando principalmente a base da pirâmide – traduzido na linguagem marxista como os Trabalhadores – os quais são manutenidos com os “corpos” em posição precária em uma espécie de necropolítica.
O que se espera neste ano de 2020 – em uma forma otimista- é a saída da forma de protesto apenas por meio do voto – a qual é tradicional como iniciativa na América Latina – extrapolando os limites da escolha presidencial, passando para uma forma, permanentemente mais ativa, de posicionamento político dado que a retomada de poder já foi experimentada em países como o Chile e Bolívia -onde as taxas de metrô foram reduzidas e houve o declínio do então presidente, respectivamente.
Assim sendo, a permanência dos focos de protestos é vislumbrada nos horizontes latinoamericanos como uma forma de aplacar a crise socioeconômica que afeta o terceiro nível social.

Referências:
Gonçalves, Reinaldo, 1951- Economia política internacional: fundamentos teóricos e as.
Relações internacionais do Brasil.
ROUSSEAU, Jean-Jacques. O Contrato Social. São Paulo: Editora Cultrix
MARX, Karl. O Capital. Vol. 2. 3ª edição, São Paulo, Nova Cultural, 1988.
International Monetary Fund. World Economic Outlook Reports. Disponível em <https://www.imf.org/en/Publications/WEO&gt;
CITI. About Citi Latin America. Disponível em: <https://www.citigroup.com/citi/about/countries-and-jurisdictions/latin-america/&gt;
Gusmão, Julia. Quero Investir. Cenário político conturbado na América Latina afasta investidores estrangeiros do Brasil. Disponível em <https://www.euqueroinvestir.com/cenario-politico-conturbado-na-america-latina-afasta-investidores-estrangeiros-do-brasil/&gt;