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Maria Eduarda Diniz – acadêmica do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Phnom Penh, Camboja, é o lar da grande e feliz família Ung, até o dia em que soldados armados do Khmer Vermelho se mudam para a cidade. O que os obriga a deixarem seu lar confortável e serem arrastados para a brutalidade, fome e terror. Uma série de abrigos, acampamentos e esconderijos improvisados ​​se tornam lares temporários, mas a família vive em risco pela ligação do pai com o antigo governo, derrubado pelo Khmer Vermelho. Ao ser separada de sua família, Loung Ung se vê sozinha e faz parte de um intenso esforço para doutrinar as crianças e transformá-las em soldados. Sua mente afiada e sua devoção à sua família são suas únicas armas diante da violência.

First They Killed My Father é um filme, de 2017, baseado no relato real e no livro de mesmo nome da menina Ung, que sobreviveu ao regime cambojano do Khmer Vermelho, que até hoje assombra a memória do país. O longa segue a garotinha em sua jornada longe de casa, e o espectador é levado a enxergar tudo o que Loung vê. O filme começa com as falsas promessas dos Estados Unidos de que eles trabalhariam junto ao governo para tornar o Camboja um lugar melhor, mas, acabam abandonando o país. O “salvador branco” não tem espaço aqui, sendo mostrado como uma ilusão criada para controlar países. A menina de 5 anos crê que haverá paz depois da saída dos americanos, mas essa ilusão não dura e ela logo percebe que um pesadelo maior está chegando.

Para mostrar a profundidade do genocídio nos dois anos do regime, a câmera se movimenta ora para o olhar da menina, ora para uma visão panorâmica maior, que mostra uma longa fila de cidadãos, fugindo de suas casas, sem saber para onde ir. Como se espera num filme sobre guerra, existe violência nas cenas, mas se tentou minimizar o máximo possível da brutalidade de certos acontecimentos, mesmo que eles sejam bem detalhados no livro.

Apesar do título fazer referência ao pai da criança, ele não é o primeiro a morrer, porém, dá-se ênfase a morte dele, pela profundidade que ela simbolizou na vida de Ung, e também para simbolizar o impacto daquele tempo na vida de tantas crianças que se tornaram órfãs graças ao Khmer Vermelho. Há uma tentativa, por parte do regime, de doutrinar estas crianças, de fazê-las enxergar o mundo do modo deles e enxergar o passado como erro. As cenas de treinamento são fortes, mas o que é mais forte é observar aquelas crianças que sucumbem, que não aguentam mais lutar, que não tem mais forças para argumentar, e assim aceitam esquecer a infância e a inocência.

Não Loung. Com seu espírito forte, ela resiste. Ela busca sempre pela família que perdeu, ou o que sobrou dela, e não se rende aos que considera inimigos. O filme é uma verdadeira mostra da força guerreira dos vários cambojanos e cambojanas que resistiram ao período mais sombrio de seu país.