A República não ouvida

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Matheus Castanho Virgulino – Acadêmico do 2° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

“O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significavam. Muitos acreditavam seriamente estar vendo uma parada.” Assim foram as lendárias palavras do republicano Aristedes Lobo no Diário Popular sobre os eventos de 15 de novembro de 1889. A proclamação da República foi até aquele momento um dos momentos mais únicos e confusos de nossa história, mudando de forma definitiva o futuro do país.

A proclamação em si foi mais um golpe militar do que uma proclamação sendo resultado dos diversos fatores históricos e políticos que levaram a queda do império. A monarquia apesar de popular começou a perder seu prestígio após a guerra do Paraguai, não instituindo reformas políticas efetivas além da abolição da escravidão, que em si acorrentou a perda do apoio dos barões do café ao imperador Pedro II.

O exército encontrava-se cada vez mais com o desejo de influência nas decisões do país, alinhado ao crescimento de ideias positivistas e americanistas na alta cúpula do exército acorrentaram na idealização do golpe republicano. Os militares tomaram o poder em 15 de Novembro de 1889, forçando a familia real a se refugiar na Europa e instituindo a república federativa dos estados unidos do Brasil, porém sem nenhum apoio do povo.

É sem precedentes o impacto que a proclamação da república teve na nossa história e política externa, através de um ideal de “América para os americanos” formulamos o nosso sistema federativo e político-administrativo sobre a rêgide dos Estados Unidos da América, além do alinhamento automático resultado de tal a nossa política externa passou a focar na cooperação liberal ao invés do expansionismo e intervencionismo do império. Apesar disso a primeira república foi caracteristicamente autoritária e oligárquica, preservando a alternaça de poder entre as elites econômicas de São Paulo e Minas gerais.

O paradigma globalista de Relações Internacionais, sendo este uma das bases do estudo de teorias em RI, apresenta uma ótica de análise de eventos e processos no sistema internacional tendo em visto o amontoado de acontecimentos e tendências históricas, assim como motivadores econômicos para uma análise de um fenômeno. Tendo em vista tal paradigma, e possível fazer-se uma análise dos eventos de 15 de Novembro de 1889 como sendo a continuidade de um processo de dominação de uma minoria detentora de amplo poder de influência sobre as massas populares.

Apesar do sistema republicano, o Brasil não passou em primeiro momento por um processo efetico de abertura democrática, o sistema sendo marcado por votações fraudadulentas e corrupção, e a manutenção do poder das elites regionais através do coronelismo, alimentado pela ampliação do modo de produção capitalista característico da epóca. De qualquer forma, é preciso usar-se o dia de 15 de Novembro para refletir sobre a nossa res publica, sobre o que ela foi, o que ela é, e o que ela pode tornar-se.

Referências:

GOMES, Laurentino. 1889. Editora Globo Livros: Rio de Janeiro, 2013

BARMAN, Roderick J. O imperador cidadão. Editora UNESP: São Paulo, 2005

MENDONÇA, Renato. História da política exterior do Brasil. FUNAG: Brasília, 2013

JACKSON, Robert; SORENSEN, Georg. Introdução às Relações Internacionais. Editora Saraiva, 2007

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