As recentes crises da América Latina

eh0i0zbx4aippqi

Fabrizzio Farias – Acadêmico do 6° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Desde o fim do boom das commodities, os países da América Latina tiveram que lutar para manter os avanços sociais da época. Nesse sentido, é importante notar que o período foi de grande crescimento em alguns países devido à grande redução da pobreza, melhoria significativa na indústria nacional, fortalecimento de cooperações dentro dos limites do continente e crescimento da economia como um todo. Os números mudaram, e cada vez mais os pesadelos de longa data voltam à realidade desses países como a extrema pobreza, desigualdade social, desemprego e etc.

As crises fiscais começaram a chegar ao longo dos anos, a um nível em que os cortes foram inevitáveis. Lênin Moreno, presidente Equatoriano e Sebastian Piñera, presidente chileno, mostram que esses casos de crises são muito mais do que somente “divisões políticas” ou questões de direita ou esquerda.

Moreno foi a grande vitória da esquerda sul-americana nas últimas eleições presidenciais, foi comemorada por Nicolás Maduro em uma rede social: “Parabéns, Equador, a revolução cidadã triunfou!”, mas ao liberar um decreto que do dia para a noite aumentou o preço dos combustíveis em mais de 130% seu governo foi posto a prova e seu gabinete movido à cidade de Guayaquil por questões de segurança.

Sebastian Piñera enfrenta a maior onda de protestos desde Pinochet. O presidente chileno resolveu aumentar os valores das passagens de ônibus e metrô com o argumento de valorização do preço do petróleo, mas teve a surpresa de uma “resistência” organizada que há tempos vem se formando em prol de educação e saúde de qualidade.

Há pouco tempo o ex-presidente Lula falou em entrevista ao jornal GGN “Sem política não existe economia”. A afirmação é correta, mas pensar que se faz política (sustentável) sem economia é pensar de forma ingênua, Robert Gilpin na década de 80 já analisava esse pensamento:

“A crescente percepção de que o Estado pode influenciar as forças do mercado, e as influências, determinando o seu destino em grau significativo, é um fator importante para explicar a emergência da economia política. Por outro lado, o próprio mercado é uma fonte de poder que influencia os resultados políticos. A dependência econômica cria uma relação de poder que é fundamental na economia contemporânea, em suma, (…) elas não funcionam de forma independente.” Gilpin (1987)

Aqui estamos lidando com uma Estrutura “muy sencilla”, mas muito eficiente e poderosa. A luta pelo poder é a responsável por um ciclo vicioso que se espalhou por toda a América Latina desde sua libertação – O Estado de joelhos a poucos à custa de muitos, escancarando um continente repleto de corrupção, desigualdade social e violência.

No contexto latino americano o Estado usa sua força em prol daqueles de quem dependem (quem os colocou no poder), os desejos e necessidades do povo ficam de lado, deixando-os desamparados ou até mesmo oprimidos.

A Sociedade civil global bate de frente contra o estamento burocrático desses países, é a alternativa de resistência de várias vias que sofrem uma estrutura tão antiga e perversa principalmente quando o “esquema de poder” de Gilpin citado acima não está balanceado, mas como estamos vendo, há vários atores no palco, e eles se fazem presente no momento de questionar essas estruturas de poder dos Estados por toda a América latina.

No Chile era esperado o maior crescimento do PIB dos últimos anos, cerca de 4%. Já na Bolívia, mesmo sendo país com o maior crescimento do PIB da América do sul dos últimos anos, há uma onda de protestos dado a grande contestação dos resultados da eleição presidencial por parte de partidos, da população, países vizinhos e de organismos internacionais como a OEA.

As recentes crises na América Latina são de grande medida, devido à economia, seja pelo enfraquecimento do Estado, ou pela crescente reivindicação de melhoria de vida da população em tempos de pouco avanço, por outro lado, grupo organizado cada vez mais demonstram o seu poder frente aos Estados, indo de encontro com status quo desses países independente de seu momento econômico.

Referências:
GGN. Sem política não existe economia, diz Lula em entrevista exclusiva ao GGN. Disponível em: https://jornalggn.com.br/tv-ggn/sem-politica-nao-existe-economia-diz-lula-em-entrevista-exclusiva-ao-ggn/ .Acesso em 31 Out de 2019
NAÇOESUNIDAS. Banco Mundial: Redução da pobreza na América Latina se deve mais a melhores salários do que a empregos. Disponível em : https://nacoesunidas.org/banco-mundial-reducao-da-pobreza-na-america-latina-se-deve-mais-a-melhores-salarios-do-que-a-empregos/ . .Acesso em 31 Out de 2019
UOL. Após década de redução, pobreza volta a crescer na América Latina a partir de 2015. Disponível em: https://dialogosdosul.operamundi.uol.com.br/america-latina/52923/apos-decada-de-reducao-pobreza-volta-a-crescer-na-america-latina-a-partir-de-2015. Acesso em 31 Out de 2019
FOLHA. Entenda as razões por trás da crise no Chile. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2019/10/entenda-as-razoes-por-tras-da-crise-no-chile.shtml. Acesso em 31 Out de 2019
LAGE, Victor Coutinho. “Sociedade civil global”: agentes não estatais e espaço de interação na sociedade política. Contexto int., Rio de Janeiro , v. 34, n. 1, p. 151-188, June 2012 . Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-85292012000100005&lng=en&nrm=iso&gt;.
GILPIN, Robert; GILPIN, Jean M. A economia política das relações internacionais. UnB, 2002.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s