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Maria Eduarda: acadêmica do 4° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Ao voltar da escola, a menina, que no filme é chamada de Hirut, é seqüestrada e mantida presa dentro de uma casa pouco distante da aldeia, onde ela é violentada por um de seus sequestradores. No dia seguinte, ela consegue fugir com uma arma de fogo na mão, mas seus seqüestradores a seguem e ela, com medo, atira em seu violentador. A partir do momento que o mata, Hirut passa a correr risco de vida e é levada a julgamento, quando a advogada Meaza Ashenafi passa a defendê-la e provar sua inocência.

O filme, baseado na história real da etíope Aberash Bekele, trata de uma tradição de noivado que existia dentro de alguns povos tradicionais do país, prática essa  que consistia no rapto e no estupro das meninas, que após esse processo, seriam “negociadas” entre os anciões, os familiares da menina e do raptor, para que assim acontecesse o casamento entre a menina e seu raptor. É importante salientar que os crimes de violência sexual são previstos dentro da constituição da Etiópia, porém, como o país possui uma grande quantidade de povos tradicionais divergentes entre si, é dada certa autonomia a eles, mesmo em questões de caráter jurídico, para que não haja grandes conflitos internos. A história de representa uma ruptura com esse distanciamento entre essas comunidades e o Estado, pois foi a Lei que prevaleceu, não a decisão da comunidade.

Acima de tudo, o longa produzido por Angelina Jolie e dirigido por Zeresenay Mehari mostra a tenacidade dessas duas mulheres, Hirut e a advogada Meaza. Alternando entre momentos com Hirut e momentos com Meaza, o filme mostra a dificuldade de se defender mulheres na Etiópia dos anos 90, como a busca por direitos iguais entre homens e mulheres era tão mais difícil e quase sempre impedida pelos interesses dos homens. Hirut apresenta uma profunda ferida emocional por ter tido sua infância arrancada de forma tão bruta, sendo forçada a encarar uma realidade sombria em que vários a acusavam quando tudo o que ela desejava era sobreviver. Meaza, com sua necessidade de entregar justiça a Hirut, apresenta o retrato de força das advogadas africanas que buscam proteger meninas e mulheres dentro de um mundo que ainda se mantém muito machista.

A tenacidade de ambas e sua contínua esperança na justiça, podem proporcionar ao espectador diferentes sentimentos enquanto assiste o filme, das lágrimas aos gritos de ódio, da euforia à decepção, da alegria a dor, do desespero a esperança, da desilusão a vitória. A busca por justiça, por respeito e direitos iguais para as mulheres, é uma luta que atravessa fronteiras, vemos essa luta na África, nas Américas, na Europa, e em todo lugar. Não é certo destruir tradições e comunidades tradicionais, a cultura de cada povo deve ser respeitada. Todavia o mais errado é disfarçar a violência como tradição.

Referências:

DIFRET. Disponível em<http://www.difret.com/>

Difret conta histórias de violência disfarçadas de tradição da Etiópia. Disponível em<https://jovemnerd.com.br/nerdbunker/difret-conta-historias-de-violencia-disfarcadas-de-tradicao-da-etiopia/>