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Geórgia Amarante – acadêmica do 8° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Nos dias 10 até 14 de agosto, aconteceu a primeira marcha das mulheres indígenas no Brasil, em Brasília; com o lema “Território: nosso corpo, nosso espírito”, o evento teve um tom de protesto ao governo Bolsonaro e suas mudanças. Além disso, o movimento denunciou a exploração da biodiversidade da Amazônia e sobretudo, a demarcação de terras indígenas que tem sido motivo de constante impasse da atual administração, pois recentemente o presidente declarou querer mudar a coordenação da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos para o Ministério da Agricultura.

A marcha foi organizada pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB) e contou com mulheres de 113 povos de todos os estados do Brasil(a organização informou que aproximadamente 3 mil pessoas participaram do evento). O movimento teve como objetivo apresentar vivências das mulheres indígenas, como disse Célia Xakriabá, professora e ativista indígena do povo Xakriabá: “O principal objetivo da marcha é reafirmar a garantia não apenas da nossa vida, mas do nosso modo de vida. Nós morremos não só quando nossa vida é tirada, mas morremos coletivamente também quando se mata a nossa identidade”.

A liderança e o poder de articulação entre as mulheres indígenas no Brasil vem aumentando cada vez mais; é bom lembrar que no ano de 2018, o país elegeu sua primeira deputada indígena mulher, Joênia Wapichana, eleita pelo estado de Roraima, que traz para o debate na câmara temas como direitos humanos, justiça social, reforma agrária e violência no campo.

Esta marcha juntou-se à “marcha das margaridas”, ação que acontece todo ano para lembrar a morte da trabalhadora rural e sindicalista Margarida Maria Alves, assassinada na Paraíba enquanto reivindicava seus direitos. As lutas se juntam para denunciar o descaso com a questão ambiental no Brasil, bem como o lugar político e social das mulheres indígenas, negras e de todas as etnias, credos, classes e de identidades de gênero. 

Foi bastante reforçado a importância das mulheres ocuparem os espaços de poder e atuar nos ambientes de discussão dentro do movimento. O evento contou com a presença de autoridades estatais, representantes não governamentais e da sociedade civil, como: a representante do parlamento peruano, sra. Tânia Patrona; representando o parlamento Equatoriano deputada Encarnacion Duch; representando a organização Aliança Ceibo, sra. Nemonte Nenquino Waorani Nemonpare do Equador; representando a ONU Mulheres, sra. Fernanda Papa.

O começo do encontro, se inicia com uma preparação a partir dos seus rituais sagrados, preparando a terra e após a discussão se inicia colocando pontos cruciais política na América Latina e no Brasil, como: “Como a presença e participação na marcha pode contribuir com as lutas e territórios destas mulheres?”, perguntas como esta e outros com a proposta de questionamento sobre o papel na defesa dos seus direitos e saberes, assim como projetos de ampliação dessa participação.

Este encontro, contou também com mesas de alianças internacionais de povos indígenas em defesa do meio ambiente, audiência no Supremo Tribunal Federal com as ministras Carmén Lúcia e Rosa Weber, bem como seminários, orientações, sessões conversando sobre diferenças e semelhantes e o que une os povos.

Desse modo, foi conversado também sobre se existe um feminismo indígena e como deveria ser. Nesse sentido, a partir da perspectiva de Julieta Paredes (2010), feminista indígena boliviana, é preciso entender que o processo organizacional dos povos pré-coloniais e compreender que é preciso buscar direitos coletivo e não individuais, pois a vivência em uma comunidade, de forma inata introduz o pensamento de coletividade, alicerçado em identidades e memórias ancestrais comuns.

Nessa lógica, Paredes (2010) insere que as mulheres devem pensar e produzir suas próprias ideias do que deveria ser o feminismo para as mulheres indígenas, “devemos hacer nuestro propio feminismo, pensamos a partir de la realidad en la que vivimos. No queremos pensamos frente a los hombres, sino pensamos mujeres y hombres en relación a la comunidade”. Em outras palavras, a própria voz indígena deve falar e questionar o patriarcado, a relação com o território, com os corpos e a violência estrutural.

A autora em seu livro reflete a mesma questão que é visto na marcha, os temas sociais e políticos, como segurança, educação e saúde são tratados de forma separada da questão de gênero, como se desse para separar as mulheres das questões estatais, como se estas não estivessem incluídas no processo. É questionado também a própria democracia transnacional que institucionaliza e legitima processos jurídicos e a medicação como meio de usurpação da vontade popular em acordos governamentais, por exemplo.

Sendo assim, é nesta problematização que é preciso causar uma mudança na estrutura, pensando a partir das diferentes realidades de mulheres, com recorte étnicos e de classe, recuperar a memória das lutas de mulheres de outras gerações, identificar o colonialismo não somente herdado pelos ocidentais, mas o de dentro das comunidades e principalmente, localizar as lutas geograficamente e culturalmente nas relações de poder internacionalmente.

É proposto provocar a mudança nesses papéis e ressignificá-los na sociedade e na história, passando a questionar sobre seus espaços e conceitos que remetem a terra e território, se mantendo fortes e articuladas em face às diversas mudanças governamentais e políticas no Brasil e na América Latina, em razão da fragilidade das democracias vigentes e do histórica de violência estrutural.

Referências:

CERIONI, Clara. 1ª marcha das mulheres indígenas, em protesto contra o governo Bolsonaro. Disponível em >>https://exame.abril.com.br/brasil/fotos-em-1a-marcha-mulheres-indigenas-protestam-contra-governo-bolsonaro/<<  Acessado em: 20 de agosto de 2019.

PAREDES, Julieta. Hilando Fino: Desde el feminismo comunitario. La Paz, Enero 2010.

Site APIB. Articulação dos Povos Indígenas do Brasil. Disponível em >>http://apib.info/<< Acessado em: 20 de agosto de 2019.