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Matheus Silveira- Bacharel em Relações Internacionais pela Universidade da Amazônia 

O dia 28 de junho é compreendido enquanto um marco para a comunidade LGBT+, pela celebração do dia do orgulho da comunidade, tendo como ponto de partida as manifestações ocorridas no bar gay Stonewall, em Nova York, 50 anos atrás (MOLINA, 2011). Instituir uma data para celebrar o orgulho de pessoas em se auto identificar como parte de um grupo social possui inúmeros significados, dentre eles, talvez os dois principais sejam celebrar conquistas alcançadas e se posicionar frente à obstáculos ainda enfrentados. 

Do ponto de vista das Relações Internacionais, o dia do orgulho LGBT+ é visto como um dos mais fortes exemplos da construção de redes de ativismo transnacionais (KECK & SIKKINK, 2011), advogando em prol dos direitos fundamentais do grupo, fazendo isso a partir da relação entre necessidades locais e o discurso global dos direitos humanos. Para fins de definição, as redes de ativismo transnacionais são sistemas de trocas recíprocas, voluntárias e sem um nível de hierarquia de comunicação sob um tema em específico, como o da luta pelos direitos LGBT+. O compartilhamento de valores e ideais é uma característica dessas redes, que vem desafiando a soberania dos Estados-nação a partir da construção de atividades a partir dos laços das redes (BREDA, 2018). 

É possível perceber, nesse sentido, mudanças nas pautas apresentadas ao longo dos anos: se no início, nas décadas de 1960 e 1970, mitos dos submovimentos existentes levantavam ideias de libertação e reconhecimento da existência gay, o século XXI é período de constante luta pela efetivação e manutenção de direitos civis e políticos, considerando todos os avanços conquistados (HUTSELL, 2012). Em grande medida, os contextos sociopolíticos, econômicos e ideológicos contribuem para tais mudanças presenciadas, pois, o momento atual pode ser considerado um dos mais esquizofrênicos da história internacional. 

Isso se dá, pois, este é um dos momentos em que o avanço de direitos políticos, civis e sociais é notório e internacional, atingindo, em diferentes proporções, todo o mundo. É nesse mesmo momento, também, que comportamentos de intolerância, preconceito e repúdio à diversidade de gênero e sexual estão, em algumas regiões, completamente fora do armário. A academia pode (e deve) contribuir na tentativa de diminuir essa segunda característica do momento histórico internacional.

Uma das contribuições encontradas advém da Espanha, do filósofo Paco Vidarte (1970-2008), reconhecido ativista do movimento LGBT+, propôs, em sua última obra, Ética Marica, a construção de redes de apoio na luta pelos direitos civis e políticos, não apenas entre pessoas da comunidade, mas também entre todos os outros grupos sociais marginalizados pela sociedade ocidental contemporâneo (VIDARTE, 2008). O seu conceito de solidariedade antisistema refere-se à percepção de que toda e qualquer forma de injustiça social está inserida em um plano mais amplo, em um sistema de preconceito enraizado enquanto crenças e transmitido a partir das atividades, dos papéis e das relações culturais existentes.  

Nesse sentido, não caberia uma luta em prol da liberdade sexual sem uma igual luta pelos direitos dos migrantes, das mulheres ou da população negra (VIDARTE, 2008). Fragmentar pautas de ativismo significa, na percepção do autor, compactuar com partes do status quo da sociedade internacional, buscar transformar as relações, porém não todas, o que reforçaria ainda mais formas de discriminação para com diversos grupos sociais.  

A luta LGBT+, considerando o que foi exposto, deve passar pela exaltação do orgulho de uma comunidade que, gradativamente, graças ao resultado de longos e difíceis processos de luta de seus membros, alcançou e vem alcançando diversas conquistas (desde o reconhecimento ao matrimônio em diversos países até a anulação de leis que condenavam qualquer tipo de expressão não heterossexual), entretanto, ela deve buscar mais que isso: ela deve buscar estar se articulando conjuntamente com outros grupos e movimentos sociais, na tentativa da construção de uma agenda de reivindicações, a nível local, global (ou glocal, como apresenta o pensador francês Paul Virílio) que perpasse violências estruturais enfrentadas por todas as pessoas marginalizadas.  

Embora essa proposição soe utópica, ainda mais considerando cenários punitivos à diversidade em diversos países, as Relações Internacionais, enquanto campo de estudos, nos permite uma série de ferramentas que podem ajudar a construção de tais práticas, como as redes de ativismo transnacionais, apresentadas anteriormente, o desenvolvimento de organizações da sociedade civil que lutem em prol dos direitos humanos fundamentais, dentre outros exemplos.  

O dia do orgulho LGBT+ deve ser entendido não apenas como uma plataforma para a veiculação midiática de festas ao redor do mundo (embora essa característica não deva ser menosprezada, tendo em vista suas contribuições econômicas e sociais), mas também deve ser encarada como ponte para a constante indagação de experiências, atos que venham ao contrário da luta pela equidade, pelo respeito e pela capacidade de cada pessoa conduzir suas relações da maneira que cada uma julgue honesta a si. 

Referências:

BREDA, Juliana. As Redes Transnacionais de Advocacy em Direitos Humanos: atuação em torno da “Questão Palestina”. Dissertação (Mestrado em Ciência Política). Curitiba: Universidade Federal do Pará. 2018. 139 p.

HUTSELL, David William. Intragroup Attitudes of the LGBT Community: Assessment and Correlates. Undergraduate Honors Theses. Paper 38. 2012. Disponível em: <http://dc.etsu.edu/honors/38&gt;. Acesso em 24 jan. 2019.

KECK, Margaret; SIKKINK, Kathryn. Activists beyond borders: advocacy networks in international politics. Cornell University Press, 1998.

MOLINA, Luana Pagano Peres. A homossexualidade e a historigrafia e trajetória do movimento homosexual. Antíteses, v. 4, n. 8, pp. 949-962, 2011. doi: 10.5433/1984-3356.2011v4n8p949

VIDARTE, Paco. Ética Marica: proclamas libertarias para una militancia LGBTQ. Barcelona e Madrid: Editorial Egales. 2007.