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Gabriela Freitas – Acadêmica do 5º Semestre de Relações Internacionais da UNAMA 

                   Um casal lésbico sofreu um ataque homofóbico em um ônibus em Londres, na Inglaterra. Melania Geymonat, 28, disse que estava com sua namorada, Chris, no andar de cima de um dos clássicos ônibus vermelhos de dois andares da cidade londrina, quando um grupo de homens entrou no ônibus e começou a assediá-las. Ao perceberem que as duas eram um casal, os homens insinuaram para elas se beijarem e ao mesmo tempo que faziam gestos obscenos. Ao receber a recusa do casal, as duas mulheres foram brutalmente agredidas pelo grupo, que no final da ação roubaram os seus pertences pessoais antes da fuga. 

              Após serem levadas ao hospital para o tratamento das agressões, a empresa Metroline, que administra os ônibus, diz que está cooperando com a polícia. E com o anúncio do caso relatado pelos jornais locais, o prefeito de Londres, Sadiq Khan, disse que o ataque é “nojento e misógino”, enquanto o secretário de saúde Matt Hancock disse que o caso é “terrível” e que “todo mundo tem direito ao amor”. Em uma entrevista à BBC Radio 4, Melania disse que já havia sofrido “muita violência verbal”, mas nunca havia sido fisicamente agredida por causa de sua sexualidade.

              Estudos e perspectivas aprofundadas no conhecido “terceiro debate” nas Relações Internacionais, em meio às críticas aos postulados estipulados na disciplina com influência realista. Em sua publicação no ano de 2013, Daniel Jatobá complementa que a teoria feminista nasceu como fruto do crescimento dos movimentos sociais de mulheres, os quais têm abordagens que se vincularam, inicialmente, aos estudos de Economia Política Internacional, apresentava-se como a área mais receptiva a questionamentos sobre a sub inclusão das mulheres na disciplina. 

              O debate sobre a inclusão das mulheres na política internacional foi introduzido pelo “feminismo liberal”, no qual existiam duas correntes teóricas preponderantes: o realismo e o liberalismo. Onde buscam a incorporação de mulheres nas relações internacionais, baseadas em princípios tradicionais do liberalismo político como a igualdade de direitos civis e de oportunidades. Almejando chamar atenção em duas questões distintas, porém interligadas: o lugar da mulher nos espaços tradicionais de política internacional e na forma como os lugares que eram efetivamente ocupados por mulheres eram tornados invisíveis politicamente. 

               A luta do sexo feminino pela sua independência sobre o poder de dominação do sexo oposto e representatividade civil, iniciou antes dos grandes movimentos revolucionários como o lançamento do manifesto da “Declaração do Direito das Mulheres”, em 1791 ou a Convenção em Sêneca Falls em Nova Iorque, no ano de 1848, onde teve pequenos movimentos como ponto inicial para grandes revoluções da massa feminina, que se tornaram marcos na história do mundo. Enfrentando os desafios da vida social, a mulher procura maneiras de combater formas de discriminação empregadas pela sociedade machista por, simplesmente, ser considerada o “sexo mais fraco”. 

               O que levou a percepção do sexo feminino de que não necessitaria dos homens para alcançar seu bem-estar e felicidade, incluindo a satisfação sexual. Esta compreensão levou a emancipação das normas sociais tradicionais sobre suas vidas e seus corpos, tendo tal conhecimento como portas para um mundo de possibilidade.  

            Com o embasamento da teoria sobre a luta contra invisibilidade feminina em conjunto com os estudos do sociólogo, Welzer-Lang sobre as relações sociais de intergêneros, como o duplo paradigma naturalista que busca definir, por um lado, a superioridade masculina sobre as mulheres e, por outro lado, a sexualidade masculina produzindo uma norma política heterocentrada e homofóbica. Atrelamos ao sentido de uma falta de acordo sobre vivência homossexual com os padrões andro-heterocêntricos, que levam a mulher lésbica ser duplamente discriminada, por ser mulher e homossexual.

            O que é comprovado com a continuidade da existência de estereótipos, que são propagados como uma noção ideal de vivência para o sexo feminino. No qual, tem encontrado resistência em revoluções feministas e na homossexualidade. Que diferentemente do que a vertente da teoria feminina liberal condiz sobre os princípios de igualdade e oportunidades, na realidade, encontramos a rejeição de uma sociedade sobre a ideia de liberdade de manifestação da atração pelo mesmo sexo. 

            Enquanto muitas vezes sejam vistas ataques contra comunidade LGBT, com o embasamento da teoria e as pesquisas realizadas, concluo que há uma diferença entre a posições dos sexos. Pois, enquanto em uma semana, um casal lésbico foi agredido na capital inglesa, houve a promoção do novo primeiro ministro israelense abertamente homossexual. Por mais que ambos se encaixem no conceito criado por Karl-Maria Kertbeny sobre homossexualidade, ambos os casos mantêm distintas posições na escala social. Cujo, mesmo que ele ainda seja abertamente gay, a figura do homem em si é atrelada a uma concepção socialmente construída, no qual no campo semântico a “masculinidade” é associada a uma série de significados como “poder”, “racionalidade”, “ação”, entre outros, enquanto que a “feminilidade” é associada ao aposto negativo ou inferior.

          Ataques como esse é um chocante lembrete de que mesmo em uma das cidades mais diversas e receptivas do mundo, ainda há trabalho a ser feito para proteção dessas pessoas no globo todo. Os números de 2018, mostram que os ataques à comunidade LGBT quase dobraram desde 2014 e no último verão o governo lançou um plano de ação para melhorar a vida das pessoas LGBT no Reino Unido. Sua pesquisa mostrou que dois terços dos casais homossexuais evitam dar a mão ao parceiro publicamente por medo de reações violentas.

Referências:

Namoradas são agredidas em ônibus de Londres por se recusarem a se beijar. Disponível em

https://www.bbc.com/portuguese/internacional-48561660

JATOBÁ, Daniel. Teoria das Relações Internacionais. Brasília: Editora Saraiva, 2013.

Construção do masculino: dominação das mulheres e homofobia por Daniel Welzer-Lang (Versão Traduzida). Disponível em

https://www.researchgate.net/publication/26366586_A_construcao_do_masculino_dominacao_das_mulheres_e_homofobia

TICKNER, J. Ann. Gender in International Relations: Feminist Perspectives on Achieving Global Security. Nova York: Columbia University Press, 1992.

HOOKS, Bell. O feminismo é para todo mundo: Políticas arrebatadoras (Português). Rosa dos Tempos, 2018.