A retomada das atividades nucleares no Irã

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Raynan Matheus – acadêmico do 5° semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Foi anunciado na quarta-feira (08) que, a República Islâmica do Irã deixaria de cumprir com os compromissos firmados no acordo sobre seu programa nuclear. Este anúncio ocorreu em uma data que marca exato um ano desde a saída dos Estados Unidos da América do mesmo.

O acordo em questão foi firmado em julho de 2015, após 20 meses de negociação entre Irã e o grupo P5+1, composto pelos 5 membros do Conselho de Segurança Permanente das Nações Unidas (EUA, Rússia, Reino Unido, França e China) mais a Alemanha, no qual consistia em retirar as sanções impostas ao programa nuclear iraniano em troca de seu desmantelamento.

Com base em informações divulgadas pela Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) órgão subordinado à ONU, o governo iraniano estava cumprindo com os termos do acordo; o que levou o Conselho de Segurança a retirar as sanções, que também faziam parte da negociação.

É válido lembrar que, o anseio do país para com o programa nuclear provém desde antes da chamada Revolução Iraniana, que impôs um governo teocrático.

Há 40 anos atrás, ainda sob o governo autocrático e pró-ocidente do Xá (monarca) Mohammad Reza Pahlevi, o Irã assinou o Tratado de Não Proliferação Nuclear, ratificando que seu programa nuclear possuía fins pacíficos. Porém, após a revolução, de cunho nacionalista, teocrático e antiamericana, os investimentos no programa podem ter  começado a alcançar outros fins.

Foi em 2005 com a ascensão de Mahmoud Ahmadinejad, que começaram a retratar internacionalmente o programa com enriquecimento de urânio. Algo que impulsionou sanções severas pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Em 2013 o país sob o governo de Hassan Rouhani, iniciou um diálogo com os EUA, liderado pelo presidente Barack Obama. O que culminou no acordo entre os países, que retirou as sanções e retomou o crescimento econômico do Irã.

Com a entrada de Donald J. Trump na presidência dos EUA, que o acordo tomou outro rumo, crítico ao acordo, desde antes de sua ascensão à presidência, Donald Trump usou deste artifício como campanha presidencial sob a justificativa de que os Estados Unidos apenas tendiam a perder com a continuidade do mesmo, e que a validade estipulada pelo governo anterior (2030) era muito curta. Como havia prometido, no dia 8 de maio de 2018 ele retira, unilateralmente, o país do acordo, mesmo sob protestos do Irã e demais países do P5+1, e impõe novas sanções.

À luz do paradigma do realismo ofensivo de John Mearsheimer fica claro que, é a racionalidade que rege os Estados, e que, na verdade, é a anarquia do Sistema Internacional a causadora de conflitos, e não necessariamente à natureza humana (como é dito no realismo clássico de Hans Morgenthau); e que não existe crescimento econômico apenas pela paz/cooperação. Um Estado é racional, portanto, não sabe quais as intenções do outro; logo, se armar para defender-se é a estratégia para sobreviver.

Para Mearsheimer há a divisão entre poder concreto e poder potencial; o primeiro está baseado nas forças armadas e território, o outro no poder econômico e populacional (é neste poder que há de fato maior força). Ele também defende que a melhor defesa é o ataque; ou seja, se necessário for, o Estado deverá ir à guerra para manter sua sobrevivência no   Sistema Internacional.

Se de um lado temos os Estados Unidos, potência regional  maximizando seu poder, impedindo o surgimento de outras potências no Oriente Próximo (Comumente conhecido como Oriente Médio), criando sanções e enviando tropas para locais estratégicos a fim de demonstrar seu “poder-força”.

Do outro temos o Irã, que na luta pela sobrevivência no sistema, investe em sua segurança nacional. Mas que, igualmente gera preocupação com os Estados vizinhos, aliados aos EUA na visão de Mearsheimer, Irã se arma para sobreviver, uma vez que, nem mesmo as potencias europeias interessam-se em desafiar as decisões americanas, por serem aliados históricos, formulam o chamado “bandwagoning” (ocorre quando uma potência se alia a outra).

Referências

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