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Tinica Austin – Acadêmica do 3º Semestre de Relações Internacionais da UNAMA

Durante a década de 1980 os neoliberais se aproximaram da ideia dos neorrealistas quanto à concepção de que os Estados são os principais atores do sistema internacional, a existência da anarquia internacional onde inexiste a presença de um Estado supranacional e na qual os Estados estão constantemente seguindo seus próprios interesses.

Diferentemente dos neorrealistas, eles acreditam que a cooperação poderia ser alcançada através de instituições e da interdependência complexa (Nye e Keohane, 1977). Ambas as visões, entretanto, podem ser utilizadas para tentar interpretar o genocídio em Ruanda, que começou em 1994 depois que um avião o qual transportava os presidentes de Ruanda e Burundi – que pertenciam ao grupo étnico Hutus – foi abatido matando todos a bordo. Isso resultou em um massacre que durou cem dias entre os dois principais grupos étnicos.

Robert Keohane e Joseph Nye (1977) argumentariam que as instituições são necessárias para promover a cooperação e alcançar benefícios mútuos, mas no caso de Ruanda, o financiamento do Banco Mundial só contribuiu para o aumento de partidos radicais entre grupos étnicos; a maioria hutu e minoria tutsi, ideologias raciais que estavam presentes em Ruanda e eram uma das principais causas do genocídio.

Mesmo que Nye reconheça o surgimento de outros atores não-estatais no sistema internacional ou sua ênfase na cooperação econômica e institucional, esta perspectiva demonstra que a comunidade internacional, em particular as Nações Unidas, falharam em responder aos sinais do genocídio até que fosse tarde demais. Mesmo a Missão de Assistência das Nações Unidas para Ruanda (UNAMIR) 1993-1994 foi bastante limitada. Possuía falta de apoio das instituições internacionais já que Ruanda não era uma prioridade internacional, além de não terem recebido todos os recursos que foram solicitados, sendo também instruída a permanecer neutra ao longo da sua atuação. Além disso, tropas européias foram enviadas para recolher seus cidadãos e as populações remanescentes foram deixadas para morrer, resultando em mais de 800 mil assassinatos e 2 milhões de refugiados.

Isso mostra que as instituições não são suficientes em alguns casos para resolver ou prevenir conflitos, apesar de suas intenções e tentativas.

Samuel Huntington (1993) Clash of Civilizations prevê que após a Guerra Fria surgiria uma nova era de confrontos étnicos, e estes refletem a construção de pressões competitivas e hostilidades entre os grupos étnicos. Sob a ótica de Huntington é possível analisar bem o caso do genocídio em Ruanda, dado que outros aspectos, como as tensões étnicas e os preconceitos históricos, estavam presentes e foram usados como um instrumento político. Esses acontecimentos abriram caminho para o pensamento que o problema é mais profundo do que as grandes potências e a interdependência, trazendo reflexões sobre as condições históricas subjacentes à desigualdade, as forças materiais e ideológicas que a sustentam e a rígida distinção entre política dentro dos estados.

Portanto, Huntington nos leva perceber que os conflitos principalmente interestatais estão relacionados a questões que vão muito além dos Estados como atores racionais, sendo que estão   interligados, e as instituições nem sempre conseguem promover resoluções pois estão sujeitas às relações de poder entre os Estados, além de  outros fatores que ultrapassam os mecanismos de cooperação .

Referências

Rwanda Genocide: 100 days of Slaughter. Disponivel em<https://www.bbc.com/news/world-africa-26875506> acesso em 4 de Abril de 2019

HINTJENS, H. Genocide War and Peace in Rwanda. Disponivel em:<https://www.researchgate.net/publication/283669296_Genocide_War_and_Peace_in_Rwanda> Accesso em 4 de Abril de 2019

HINTJENS, H. Explaining the 1994 genocide in Rwanda. The Journal of Modern African Studies[online]. 37(2),Disponivel em < http://www.jstor.org/stable/161847> acesso 4 de Abril de 2019

HUNTINGTON, S. The Clash of Civilizations? Foreign affairs .1993 72 (3), pp 22-49

JACKSON,R AND SORENSEN,G. Introduction to International Relations,theories and approaches. Oxford University Press: United Kingdom, 2016 p-105 Power and Interdependence