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Karoline França- Acadêmica do 7º semestre de Relações Internacionais da UNAMA

A política brasileira passa por diversas mudanças estruturais e ideológicas na medida que muda seu governo. Nesse sentido, é perceptível a transição de opinião diplomática que se instala no novo governo, deixando de se posicionar e de atuar da forma que tradicionalmente tratava assuntos específicos.

A exemplo disto, nota-se uma mudança na tradição diplomática brasileira sobre as resoluções contra as políticas israelenses em relação aos palestinos desde 2006, onde aprovou 29 resoluções contra essas políticas no Conselho de Direitos Humanos da ONU. No entanto, no último dia 22, o Brasil se posicionou a favor de Israel durante a votação sobre territórios e optou por votar contra uma resolução que estabelecia a necessidade de que violações cometidas pelo governo de Benjamin Netanyahu fossem levadas à Justiça, sendo o único país latino-americano a tomar tal atitude, além de se abster no que se refere à expansão dos assentamentos israelenses em terras ocupadas.

Nessa lógica, o chanceler brasileiro, Ernesto Araújo, vem defendendo um alinhamento claro com os Estados Unidos, o que resulta consequentemente em uma relação com os anseios do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, já que ambos os países são fortes aliados militares, sendo Israel um dos maiores receptores de ajuda norte-americana, grande parte destinada a subsídios para a compra de armas. Dito isto, o que o Brasil tem a ganhar e a perder com esse alinhamento com os Estados Unidos e aproximação com Israel?

A expectativa do governo brasileiro é que Trump faça concessões ao Brasil que incluem acesso ao mercado norte-americano, investimentos no Brasil, vendas de armamentos, intercâmbio e cooperação na área de segurança, cibernética e de controle de fronteiras. Além de que o Brasil pode tentar se utilizar da proximidade maior com os Estados Unidos para concluir o processo de entrada na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Já Israel, por ser um polo tecnológico, poderia oferecer ao Brasil parcerias que incluam transferência de conhecimento científico, como irrigação para o setor agrícola, dessalinização de água em áreas de seca e segurança cibernética para uso no combate ao crime organizado.

Outro ponto importante da aproximação entre Brasil e Israel é a mudança da embaixada brasileira de Tel Aviv para Jerusalém, proposta por Bolsonaro na semana seguinte à sua eleição. Isto, significaria um grande impacto nas relações do Brasil com outros países do Oriente Médio, que são grandes parceiros comerciais brasileiro há décadas, sobretudo na indústria bélica e no agronegócio. Isto posto, é importante enfatizar o perigo que é perder a parceria árabe, sobretudo por apoio em votações internacionais.

Dessa forma, as ideias do autor Kenneth Waltz serviram como base teórica para entender esses acontecimentos. Dentro dessa perspectiva, houve uma reformulação do realismo político clássico na fundação do realismo estrutural ou neorrealismo,  no qual a procura por poder e segurança pelos Estados não ocorre em função da natureza humana, mas sim devido a estrutura do sistema internacional, como sendo a causa para que os Estados atuem dessa forma. Em 1979, Waltz aponta que as teorias de política internacional podem ser de dois tipos: reducionistas ou sistemáticas. O autor reconhece que as Relações Internacionais são marcadas por continuidades e mudanças na estrutura e postula que os Estados se relacionam em caráter de competitividade na arena anárquica internacional.

O autor afirma que o poder está distribuído no Sistema Internacional de forma assimétrica, e para buscar o equilíbrio de poder, os Estados fariam uso do seu poder-força, que corresponde ao seu poderio bélico, lembrando que o Sistema Internacional encontra-se configurado de forma anárquica, ou seja, um Estado possui autonomia sobre suas ações, o que justifica o uso da força, em outras palavras, cada Estado deve encontrar-se devidamente preparado para possíveis ataques.

Denominada de “Realismo Defensivo”, sua teoria acreditava que era de suma importância a preparação para possíveis ataques, e por isso, os países deveriam criar alianças entre si, chamadas de “Bandwagon”, a fim de preservar o máximo de sua autonomia e manter o equilíbro de poder. Esses alinhamentos se configuram a partir de Estados menores se unindo às potências de expressão ou podem envolver vários Estados menores se alinhando em contrapartida a potência com o intuito de fortalecimento. Desse modo, a partir das contribuições apresentadas por Waltz, pode-se concluir que para ele o poder em si é medido através das somas das capacidades dos setores políticos, enconômicos e militares compartilhados dos Estados.

Ao analisar a quebra da tradicional diplomacia brasileira exercida no Oriente Médio, sendo resultado do alinhamento com os Estados Unidos e aproximação com Israel sob a teoria neorrealista ou realismo estrutural proposto por Kenneth Waltz, nota-se que assim como é apresentado na teoria, há poucas diferenças nas motivações que levam os Estados a se aliarem, pois em um sistema internacional anárquico, os países buscam as melhores formas de maximizar o seu poder. A diferença se refere às distribuições das capacidades, ou distribuição desses poderes.

Um dos principais fatores que levou o Brasil a se aliar a estes países é o poderio militar de ambos, em consequência disto, buscar o equilíbrio de poder, a partir de países que possuem maior poder-força. Nesse caso, o país escolhe seus aliados, mesmo significando uma ruptura com sua diplomacia tradicional em relação ao conflito Israel x Palestina.

Por outro lado, isto pode abalar a condição tradicional do Brasil como um país multilateral, que exerce uma condição de liderança regional, possui uma diversa economia internacional e conta com essa pluralidade de relações políticas e econômicas na sua atuação nos organismos internacionais, além de fornecer uma importante contribuição na mediação de conflitos. Ao abrir mão deste histórico, o país acabará prejudicando relações estratégicas com outras potências, como a China, e a própria condição do Brasil nos BRICS e aliados regionais, além, é claro, das relações com os países árabes, que constituem mercados importantes para a produção brasileira.

Portanto, deve-se recuperar o debate estratégico acerca da política externa e relembrar que o crescimento econômico do Brasil no mundo se constitui de forma mais sólida a partir do apoio de Teerã, Ramalah e Doha do que por Washington e Tel-Aviv. A questão a ser respondida é: Vale a pena abrir mão das relações econômicas e diplomáticas tradicionais em nome do poder bélico?

REFERÊNCIAS

CASTRO, Thales. Teoria das Relações Internacionais. FUNAG, Brasília, 2016.

CHADE, Jamil. Bolsonaro rompe tradição diplomática e vota contra palestinos na ONU. Disponível em: < https://jamilchade.blogosfera.uol.com.br/2019/03/22/brasil-rompe-tradicao-diplomatica-e-vota-contra-palestinos-na-onu/> Acesso em: 23 de março de 2019

JATOBÁ, Daniel. Teoria das Relações Internacionais. Editora Saraiva, São Paulo, 2013.

PASSARINHO, Nathalia. Embaixada em Jerusalém: o que o Brasil pode ganhar e perder se aproximando de Israel. Disponível em: <https://www.bbc.com/portuguese/brasil-46815018> Acesso em: 23 de março de 2019

WALTZ, Kenneth. Man, the State, and War. Columbia University Press, New York, 1954.