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Julienny Corrêa – Internacionalista formada pela Universidade da Amazônia (UNAMA)

Nesta sexta-feira (15) as mesquitas Al Noor e Linwood da cidade de Christchurch (Nova Zelândia) foram alvo de ataques que deixaram cerca de 49 pessoas mortas e 20 feridas. O atirador na mesquita de Al Noor, iniciou os ataques e o transmitiu ao vivo, enquanto outro atirador iniciava o atentado em Linwood. Duas bombas também foram encontradas em um veículo próximo e seriam parte do ataque (REGAN; SIDHU, 2019).

Um dos atiradores foi identificado como autor do manifesto “The Great Replacement” – publicado minutos antes do atendado – onde, em mais de 70 páginas, descreveu motivações neofascistas, além de fazer referências a outros supremacistas e assassinos em massa, direciona o seu objetivo em causar o medo em comunidades muçulmanas e garantir o futuro da sua “herança europeia”. Escolheu a Nova Zelândia especialmente pela relativa ausência de crimes relacionados ao racismo e xenofobia, afirmando o objetivo de demonstrar que “nenhum lugar do mundo é seguro” (MARTIN; SMEE, 2019).

Ao transformar o ataque em uma espécie de “espetáculo” de violência pela transmissão ao vivo e constante visibilidade midiática, o atirador conseguiu atingir um número colossal de pessoas e causar terror em vários lugares do mundo na tentativa de tornar realidade o seu manifesto. Disseminando a sensação de que nenhum lugar é seguro, e ainda, tragicamente influenciar outros indivíduos, que compartilham ideologias supremacistas, a agirem.

Historicamente, o medo foi usado como forma sistemática para estabilizar Estados, destacando-se os regimes totalitários, o terrorismo, e também através de reformas políticas de teor extremista através da retórica da ameaça do estrangeiro. O medo promove desespero e a descrença, o que paralisa a ação social e ainda pode contribuir para o crescimento da intolerância.

Vale ressaltar que a violência não representa necessariamente poder, mas como neste caso, corresponde a um ato extremo de indivíduos que se entendiam como “negligenciados” pelo poder vigente, e através de uma ação violenta desejavam serem “ouvidos” e mudar a conjuntura de maior inclusão e diversidade cultural através da força e do medo.

Para Hannah Arendt (2011) o medo significa a destruição do humano nos homens, por torna-los impotentes, ansiosos, isolados e sem compreensão da humanidade e sem ação política, pois, “ao medo correspondem ao desespero, a impotência, a ansiedade e o desamparo, nada capaz de fundamentar um sistema verdadeiramente político que garanta as condições da segurança, da liberdade e da ação” (BRANCO; ROCHA, p. 47).

Como internacionalistas costumamos verificar os fatos internacionais analisando suas condições de possibilidade para compreendê-los e até mesmo desenvolver modos de prevenção. No entanto, estas tragédias tornam-se cada vez mais difíceis de “dar sentido”, nos termos da professora Érica Resende (2009) “a crise advém da incapacidade dos indivíduos em dar sentido à realidade e a si mesmos” (p. 17), portanto, é necessário continuar debatendo e levantando as pautas sobre o extremismo, posse de armas, intolerâncias, saúde mental, violências e masculinidades, de modo a não sermos inertes em frente ao medo.

Referências:

BRANCO, Judikael Castelo; ROCHA, Lara França. Medo, Terror e Inação segundo Hannah Arendt. Kínesis, Vol. VIII, n° 19, Ed. Especial, Dez. 2016, p.39-53. Disponível em: < https://www.marilia.unesp.br/Home/RevistasEletronicas/Kinesis/3_judikaelelara.pdf>. Acesso em: 15 mar. 2019.

MARTIN, Lisa; SMEE, Ben. What do we know about the Christchurch attack suspect?. Disponível em: <https://www.theguardian.com/world/2019/mar/15/rightwing-extremist-wrote-manifesto-before-livestreaming-christchurch-shooting>. Acesso em: 15 mar. 2019.

RESENDE, Erica Simone Almeida. Americanidade, Puritanismo e Política Externa: a (re)produção da ideologia puritana e a construção da identidade nacional nas práticas discursivas da política externa norte-americana. (2009), 323 f. Tese (Doutorado em Ciência Política) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo (USP), São Paulo.

REGAN, Helen; SIDHU, Sandi. 49 killed in mass shooting at two mosques in Christchurch, New Zealand. Disponível em: <https://edition.cnn.com/2019/03/14/asia/christchurch-mosque-shooting-intl/index.html>. Acesso em: 15 mar. 2019.