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Manuela Tourinho – Acadêmica do 5º Semestre do curso de Relações Internacionais – UNAMA

O 8 de março é conhecido como o Dia Internacional da Mulher desde 1911, um ato meramente simbólico comparado com a realidade de diversas mulheres ao redor do mundo, subjugadas por estereótipos de gênero e vítimas de invisibilização, em uma sociedade onde o status quo, pautado por normas patriarcais fazem com que a sua mera existência seja um ato de resistência.

A origem da homenagem remete a 8 de março de 1857 quando operárias foram mortas por um incêndio dentro de uma fábrica têxtil em Nova Iorque (EUA). Longe de ser uma morte passiva, essas mulheres estavam inseridas no início da mobilização trabalhista das mulheres no final do século 19, quando as operárias protestavam contra as condições insalubres de trabalho, além de demandar a diminuição da carga horária de trabalho e o direito à licença à maternidade ou como explica a socióloga Flávia Rios: “No incêndio, morreram operárias num contexto em que feministas e trabalhadoras faziam forte mobilização pela igualdade na política e por melhores condições de trabalho” (RIOS apud MODELLI, 2017). Dado esse fato, é necessária a desvinculação do Dia Internacional da Mulher a ideia de uma data comemorativa e extremamente capitalizada, pois está longe de ser isso, o 8 de março é uma data política.

Uma das inúmeras vertentes da teoria feminista, o feminismo marxista, traça seus argumentos sobre a forma que as mulheres foram aprisionadas historicamente e socialmente em construtos sociais aliados à maternidade. Com a I Revolução Industrial, estas construções são configuradas como desvantagem às mulheres, já que, como não era um trabalho capitalizado, portanto, não era um trabalho válido.

 A inserção das mulheres à indústria foi fruto de uma luta árdua, marcada inicialmente por uma baixa remuneração e condições de trabalho precárias; nessa seara, as pautas da teoria marxista contribuíram para a construção de movimentos feministas aliados à pauta trabalhista. Dado este contexto, surgiram diversas defensoras e teóricas, uma delas foi Clara Zetkin, dirigente do movimento socialdemocrata alemão que, “não somente defendia o direito das mulheres ao trabalho, mas acreditava que o trabalho assalariado era ‘um pré-requisito essencial’ para a independência das mulheres” (GOLDMAN, p. 63, 1993)⁠, a mesma também teve um trabalho teórico extenso, no qual ampliou as análises iniciais de Engels e Bebel acerca do trabalho feminino e suas raízes.

O princípio do direito da mulher ao trabalho, ratificado pela Segunda Internacional/Internacional Operária (1907), acompanhado da criação de organizações especiais de mulheres dentro de todos os partidos socialistas e uma posição a favor da organização ativa em prol do sufrágio feminino (concretizado em 1918 no Reino Unido), marcam o início da estratégia oficial para a libertação plena da mulher, nos sentidos  político, econômico e social.

Nesta data precisamos lembrar a importância da luta das mulheres operárias para a construção dos direitos das mulheres, assim como é necessária a reflexão de que a não capitalização do trabalho doméstico ainda é um problema na contemporaneidade. Como tratado no início deste texto estamos falando de uma data política e como tal possui diversas pautas fundamentais para a vida de meninas e mulheres que resistem diariamente, muitas vezes sem acesso a direitos humanos básicos, como, dignidade e saúde.

 

Bibliografia

GOLDMAN, Wendy. Mulher, Estado e revolução. 1. ed. São Paulo: Boitempo Editorial, 2014.

MODELLI, Lais. Nada de incêndio na fábrica! Esta é a verdadeira história do 8 de março, 2017. Disponível em: <https://azmina.com.br/reportagens/esqueca-o-incendio-na-fabrica-esta-e-a-verdadeira-historia-do-8-de-marco/>.